Despedida

Caro amigo,

Não me apresentarei, pois não é necessário. Tudo que precisa saber é que partirei hoje. Para o Céu. Para o inferno. Quem sabe?

Minha vida teve seus altos e baixos, como toda vida.

Nos altos quis viver para sempre. Nos baixos quis morrer. Mas teve um momento, especialmente marcante, que me acompanharia até hoje.

Tinha vinte anos quando a conheci. Estávamos cursando a faculdade de letras, sonhávamos em ser escritores. Claro, ela conseguiu. Eu publiquei um livro aqui, outro ali, mas nada que me fizesse ir ao sucesso. Hoje ela é conhecida mundialmente, e eu estou aqui, sentado em minha poltrona de couro, em um apartamento pequeno, numa cidade esquecida pelo mundo, trabalhando no jornal da cidade.

Tínhamos prometido que quando publicássemos nosso primeiro livro, iríamos à tarde de autógrafos um do outro.

Éramos muito amigos, todos diziam que fazíamos um casal belíssimo. Eu a amava, mas sabia que ela não sentia o mesmo, então nunca disse nada.

Quando ela lançou o primeiro livro de sua trilogia, cinco anos depois de nos conhecermos e dois anos depois de termos terminado a faculdade e, consequentemente, perdido um pouco o contato, fui à tarde de autógrafos como havia prometido.

Ela estava linda, em seu vestido azul preferido, acompanhada de seu namorado. Ficou surpresa quando me viu, pois não acreditava que eu ainda lembrava de nossa promessa. Mas eu me lembrava. Não só da promessa, mas, de todos os dias que passamos juntos.

Quando chegou o meu grande dia, ela também compareceu. Foi quatro anos depois da estreia dela, e desde então nunca mais havíamos nos falado. Então pedi que ficasse até o fim para conversarmos depois, e assim ela fez.

Fomos a um restaurante e conversamos por horas. Ela me disse que havia se casado, que estava escrevendo um novo livro, e que estava vivendo um dos melhores momentos de sua vida.

Eu disse que estava morando sozinho, e que estava muito feliz por ela. Não tinha nada de extraordinário para contar.

Despedimos-nos e cada um foi para seu canto.

Desde então se passaram cinquenta anos e nunca mais nos vimos.

Hoje achei que seria mais um dia comum, até que abri a porta e peguei o jornal. Ela estava na capa, linda como sempre. Mesmo com as rugas cobrindo seu rosto, para mim ela irá ser sempre aquela garota de vinte anos, alegre, sonhadora, que queria conquistar o mundo com suas palavras.

A foto vinha acompanhada da notícia de sua morte.

Senti uma dor tão grande, que achei não ser mais possível respirar. Ser queimado vivo doeria menos, ser afogado seria menos agonizante.

Eu perdi a única mulher que amei em toda a minha vida. Mesmo quando deixamos de nos falar, nunca, nem um segundo sequer deixei de pensar nela.

Comprei todos os seus livros. Ela se tornou uma escritora brilhante, como eu sempre soube que seria.

No final, minha vida não teve nada de extraordinário. A única coisa extraordinária nunca foi minha, casou, teve filhos, foi feliz, e agora partiu, me deixando aqui sozinho, como eu sempre estive.

É por isso que partirei. Não vejo motivos para continuar em um mundo onde ela não exista.

Espero que você tenha uma vida melhor que a minha.

Por: Fernanda Cipriano.

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