Fique comigo até eu dormir

Deito na cama dura, me cubro com um lençol fino tentando fazer com que o frio dentro da cela diminua. Mas não diminui.

Quando caio no sono, tenho o mesmo sonho desde aquele dia. As imagens mais vívidas do que nunca.

Estamos no carro, eu e Julie, indo para a Itália, para começarmos uma vida juntos, longe de tudo e de todos.

Tínhamos namorado quando éramos adolescentes, mas a vida nos separou e ela acabou se casando com outro. Quando enfim nos reencontramos, vimos que nunca tínhamos deixado de nos amar.

Então ela pediu a separação para o marido, que custou a aceitar, e agora estamos aqui, juntos, dentro de um carro, a caminho de uma nova vida.

Quando estávamos quase chegando ao aeroporto, nosso motorista parou.

Perguntei se havia algo de errado, e ele nos disse para sairmos do carro. Quando saímos, um carro estacionou ao nosso lado. Dele desceu o ex-marido de Julie. Ele estava armado.

– Julie, é sua última chance. Ou você vem comigo, ou eu atiro! – Berrou Marcos.

– Marcos, se acalme. Eu não vou voltar, mas, por favor, não atire. – Julie já estava aos prantos.

– Abaixe essa arma! Não vê que ela não quer mais nada com você? Ela não te ama mais, aceite isso. – Falei.

– Nunca! Julie, volte, vamos para casa. – Implorou Marcos.

– Eu não vou voltar Marcos.

E então o barulho. O mundo pareceu congelar, e tudo o que eu via era Julie caída no chão e o sangue escorrendo de seu peito.

Ajoelhei-me ao seu lado, gritando, implorando para que não me deixasse.

– Vai ficar tudo bem. – Disse segurando suas mãos frias e dando um beijo em seu rosto. As lágrimas escorrendo dos meus olhos.

Pedi desculpas por ter ido embora quando éramos jovens, por não conseguir protegê-la desse psicopata infeliz.

– Não é sua culpa. Você não sabia. – Disse Julie. – Fique comigo até eu dormir. – As palavras saindo quase como um sussurro.

– Ele vai pagar por isso. – Disse com raiva.

– Shiii. – Ela disse me puxando para perto. – Apenas fique comigo.

A beijei pela última vez.

A cena muda. Estou na mansão de Marcos, o corpo dele no chão ensanguentado. Morto pelas minhas mãos.

Acordo com o barulho do policial abrindo a cela. Hoje serei morto. Fui condenado à pena de morte por ter matado Marcos.

Enquanto caminho pelo corredor branco revivo as cenas em minha mente.

Finalmente encontrarei Julie, e poderemos viver juntos, como sempre sonhamos.

Estou parado, o policial na minha frente está com a arma estendida, mirando em minha cabeça.

Meus últimos pensamentos são:

“Fique comigo até eu dormir.”

P.s. Texto inspirado na música Kiss it all better da banda He Is We.

Por: Fernanda Cipriano.

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