Mar Tenerife

Estou parado em frente ao altar, vestindo o terno que escolheu para mim, as mãos molhadas de suor enquanto vejo você entrar acompanhada de seu pai.
Você está tão linda nesse vestido. Seu cabelo pendendo em seu ombro e costas, do mesmo jeito que estava quando nos conhecemos. Você fica linda assim. Posso dizer que branco é a sua cor.
E todas as pessoas que um dia não acreditaram que chegaríamos aonde chegamos, estão de pé, olhando para você, para nós. Nos vendo fazer tudo o que disseram que não faríamos.
Você me olha com aquele olhar, como se ninguém soubesse nada além de mentiras. E nesse momento, eu sou o homem mais feliz do mundo. Se eu morresse agora, morreria feliz. Porque você é tudo o que eu preciso, e vou fazer você saber disso todos os dias.
Estou tão apaixonado.
As luzes nos castiçais e o brilho no sol entrando pelas janelas realçam a cor azul dos seus olhos. É como se eu estivesse olhando para o Mar Tenerife.
E de repente, todas as pessoas desaparecem enquanto me perco em seus olhos e você me ilumina.
Seus olhos poderiam ser a última coisa que eu vejo, porque nada mais importa.
E quando você para ao meu lado, eu prometo que farei você saber todos os dias que você é a única coisa que preciso.

P.s. Texto inspirado na música Tenerife Sea do Ed Sheeran.

Por: Fernanda Cipriano.

Fique comigo até eu dormir

Deito na cama dura, me cubro com um lençol fino tentando fazer com que o frio dentro da cela diminua. Mas não diminui.

Quando caio no sono, tenho o mesmo sonho desde aquele dia. As imagens mais vívidas do que nunca.

Estamos no carro, eu e Julie, indo para a Itália, para começarmos uma vida juntos, longe de tudo e de todos.

Tínhamos namorado quando éramos adolescentes, mas a vida nos separou e ela acabou se casando com outro. Quando enfim nos reencontramos, vimos que nunca tínhamos deixado de nos amar.

Então ela pediu a separação para o marido, que custou a aceitar, e agora estamos aqui, juntos, dentro de um carro, a caminho de uma nova vida.

Quando estávamos quase chegando ao aeroporto, nosso motorista parou.

Perguntei se havia algo de errado, e ele nos disse para sairmos do carro. Quando saímos, um carro estacionou ao nosso lado. Dele desceu o ex-marido de Julie. Ele estava armado.

– Julie, é sua última chance. Ou você vem comigo, ou eu atiro! – Berrou Marcos.

– Marcos, se acalme. Eu não vou voltar, mas, por favor, não atire. – Julie já estava aos prantos.

– Abaixe essa arma! Não vê que ela não quer mais nada com você? Ela não te ama mais, aceite isso. – Falei.

– Nunca! Julie, volte, vamos para casa. – Implorou Marcos.

– Eu não vou voltar Marcos.

E então o barulho. O mundo pareceu congelar, e tudo o que eu via era Julie caída no chão e o sangue escorrendo de seu peito.

Ajoelhei-me ao seu lado, gritando, implorando para que não me deixasse.

– Vai ficar tudo bem. – Disse segurando suas mãos frias e dando um beijo em seu rosto. As lágrimas escorrendo dos meus olhos.

Pedi desculpas por ter ido embora quando éramos jovens, por não conseguir protegê-la desse psicopata infeliz.

– Não é sua culpa. Você não sabia. – Disse Julie. – Fique comigo até eu dormir. – As palavras saindo quase como um sussurro.

– Ele vai pagar por isso. – Disse com raiva.

– Shiii. – Ela disse me puxando para perto. – Apenas fique comigo.

A beijei pela última vez.

A cena muda. Estou na mansão de Marcos, o corpo dele no chão ensanguentado. Morto pelas minhas mãos.

Acordo com o barulho do policial abrindo a cela. Hoje serei morto. Fui condenado à pena de morte por ter matado Marcos.

Enquanto caminho pelo corredor branco revivo as cenas em minha mente.

Finalmente encontrarei Julie, e poderemos viver juntos, como sempre sonhamos.

Estou parado, o policial na minha frente está com a arma estendida, mirando em minha cabeça.

Meus últimos pensamentos são:

“Fique comigo até eu dormir.”

P.s. Texto inspirado na música Kiss it all better da banda He Is We.

Por: Fernanda Cipriano.

Despedida

Caro amigo,

Não me apresentarei, pois não é necessário. Tudo que precisa saber é que partirei hoje. Para o Céu. Para o inferno. Quem sabe?

Minha vida teve seus altos e baixos, como toda vida.

Nos altos quis viver para sempre. Nos baixos quis morrer. Mas teve um momento, especialmente marcante, que me acompanharia até hoje.

Tinha vinte anos quando a conheci. Estávamos cursando a faculdade de letras, sonhávamos em ser escritores. Claro, ela conseguiu. Eu publiquei um livro aqui, outro ali, mas nada que me fizesse ir ao sucesso. Hoje ela é conhecida mundialmente, e eu estou aqui, sentado em minha poltrona de couro, em um apartamento pequeno, numa cidade esquecida pelo mundo, trabalhando no jornal da cidade.

Tínhamos prometido que quando publicássemos nosso primeiro livro, iríamos à tarde de autógrafos um do outro.

Éramos muito amigos, todos diziam que fazíamos um casal belíssimo. Eu a amava, mas sabia que ela não sentia o mesmo, então nunca disse nada.

Quando ela lançou o primeiro livro de sua trilogia, cinco anos depois de nos conhecermos e dois anos depois de termos terminado a faculdade e, consequentemente, perdido um pouco o contato, fui à tarde de autógrafos como havia prometido.

Ela estava linda, em seu vestido azul preferido, acompanhada de seu namorado. Ficou surpresa quando me viu, pois não acreditava que eu ainda lembrava de nossa promessa. Mas eu me lembrava. Não só da promessa, mas, de todos os dias que passamos juntos.

Quando chegou o meu grande dia, ela também compareceu. Foi quatro anos depois da estreia dela, e desde então nunca mais havíamos nos falado. Então pedi que ficasse até o fim para conversarmos depois, e assim ela fez.

Fomos a um restaurante e conversamos por horas. Ela me disse que havia se casado, que estava escrevendo um novo livro, e que estava vivendo um dos melhores momentos de sua vida.

Eu disse que estava morando sozinho, e que estava muito feliz por ela. Não tinha nada de extraordinário para contar.

Despedimos-nos e cada um foi para seu canto.

Desde então se passaram cinquenta anos e nunca mais nos vimos.

Hoje achei que seria mais um dia comum, até que abri a porta e peguei o jornal. Ela estava na capa, linda como sempre. Mesmo com as rugas cobrindo seu rosto, para mim ela irá ser sempre aquela garota de vinte anos, alegre, sonhadora, que queria conquistar o mundo com suas palavras.

A foto vinha acompanhada da notícia de sua morte.

Senti uma dor tão grande, que achei não ser mais possível respirar. Ser queimado vivo doeria menos, ser afogado seria menos agonizante.

Eu perdi a única mulher que amei em toda a minha vida. Mesmo quando deixamos de nos falar, nunca, nem um segundo sequer deixei de pensar nela.

Comprei todos os seus livros. Ela se tornou uma escritora brilhante, como eu sempre soube que seria.

No final, minha vida não teve nada de extraordinário. A única coisa extraordinária nunca foi minha, casou, teve filhos, foi feliz, e agora partiu, me deixando aqui sozinho, como eu sempre estive.

É por isso que partirei. Não vejo motivos para continuar em um mundo onde ela não exista.

Espero que você tenha uma vida melhor que a minha.

Por: Fernanda Cipriano.